segunda-feira, 20 de novembro de 2017

FILMES E SÉRIES - DICA CRIMINOLÓGICA DA SEMANA - SYLVESTER STALLONE – PARTE I

Ao pensarmos em indicar filmes e séries, seria mais cômodo optarmos por grandes clássicos de consagrados diretores. No entanto, a criminologia deve ser popularizada, deve ser subversiva e não um instrumento ou ferramenta que apenas alguns intelectuais esclarecidos têm o monopólio de sua discussão ou reflexão.
Se a criminologia não é popular, acessível e descomplicada ela na verdade se torna apenas mais um instrumento a serviço da elitização dos saberes. O monopólio entre poucos profissionais e principalmente a dificuldade da comunicação de massa são entraves para que a criminologia se popularize e se torne um instrumento democrático.
A criminologia deve ser do cotidiano!
Neste sentido hoje analisamos um ator emblemático da década de 1980 que se popularizou fazendo filmes com diálogos por vezes vazios é verdade, mas sempre retratando como ninguém o discurso político ideológico dominante.

STALLONE COBRA 
(1986 - dir. Pan Cosmatos)


O tenente Marion "Cobra" Cobretti está no centro de uma série de assassinatos cometidos por uma sociedade secreta chamada Nova Ordem, em que os assassinos escolhem os membros mais fracos da sociedade para o extermínio. Com o número de homicídios aumentando, Cobra mantém a modelo Ingrid em custódia depois que ela testemunha contra o líder da Nova Ordem. Cobra se apaixona por Ingrid e eles encontram abrigo em uma pequena cidade, mas logo precisam lutar pela sobrevivência.


Este filme é um material essencial para se entender o discurso de ódio que hoje se populariza, o discurso que legitima a violência do Estado e principalmente que fomenta um dos maiores princípios da defesa social: BEM X MAL.
O filme parte da total estigmatização do criminoso e a exaltação da violência do agente de polícia que representa a sociedade “de bem”.
Até porque os criminosos na película são desenvolvidos de maneira superficial e pobre. São unicamente maus e não apresentam nenhuma variação de caráter e tampouco demonstram a complexidade existente em personalidade. Enfim, são a representação do mal caricato e até burlesco.


A motivação para os antagonistas são a simples destruição da vida de terceiros, sem nenhuma causa aparente, enquanto o protagonista, além de ser movido por ideais altruístas para com a sociedade ainda se apaixona por uma vítima em potencial.
O pensamento binário de pessoas boas x pessoas más fica claro em frases como:

“Você é um cretino [...] você é um cocô e eu vou matar você” (frase dita em uma negociação com reféns).

“Você é uma doença e eu sou a cura” (frase dita a um criminoso).

“ A gente prende e ele solta” (em referência aos juízes).

“Com louco eu não negocio, eu mato” (em diálogo com um criminoso).


O maniqueísmo fica claro em cada segundo da película (na verdade o agente Cobretti se esquece de que ele desobedece todo e qualquer regramento ou lei em relação às suas ações violentas).
Mas isso é irrelevante para o grande público. Pois, a desumanização total dos antagonistas faz com que nossas pulsões violentas sejam satisfeitas por todo ato brutal e sádico que o protagonista efetue.
É interessante também perceber que todos os vilões do filme são moldados a partir de uma infantil interpretação do CRIMINOSO NATO de Lombroso. Inclusive fisicamente eles se assemelham ao biótipo traçado pelo psiquiatra italiano ainda no século XIX.


Mas a razão de citarmos este filme em nossa galeria reside ao fato de que são incontáveis clichês que ajudam o telespectador entender toda a dinâmica de pensamento social em relação à segurança pública atual. Embora o filme seja uma obra de 1986, os diálogos proferidos pelo protagonista parecem ter saído do nosso noticiário das dezoito horas de ontem.


A obra de Pan Cosmatos é o exato retrato de uma sociedade extremamente violenta que enxerga na brutalização da segurança pública a melhor e mais efetiva resposta para todos os problemas e ainda culpam a lei e o Estado Democrático de Direito pela desestruturação social.
O filme ainda deixa o telespectador com um confortante sentimento de não responsabilização pelo quadro de violência que a sociedade retratada demonstra. Ao fomentar a demonização de determinados indivíduos o filme deixa claro que a sociedade não tem participação no caos que vivenciamos.

É inegável que os vilões do filme (moldados de maneira unilateral) são sociopatas perigosos, mas isso não quer dizer que o herói (também moldado de forma unilateral) também não seja. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

FILMES E SÉRIES - DICA CRIMINOLÓGICA DA SEMANA


NARCOS - (SÉRIE - 3 TEMPORADAS - DIR. José Padilha)



SINOPSE

A série é ambientada na Colômbia entre o final da década de 1970 e o final dos anos 1990. Conta a história da expansão da política proibicionista americana e o auge da propagação da cocaína nos Estados Unidos e demais países do mundo. O foco da primeira e segunda temporada é o emblemático cartel de Medellin e na terceira temporada prioriza-se o organizado cartel de Calli. 

PORQUE ASSISTIR?

Leis 
Sociedade criminógena
Proibicionismo
Guerra às Drogas
Comportamento violento
Política
Geopolítica
Teoria Crítica
Sociopatia
Crítica à teoria da defesa social  


Do ponto de vista criminológico a série nos remete a dezenas de reflexões a respeito das leis, da sociedade e também do comportamento violento específico. 
Primeiramente é importante que o telespectador veja como foi o impacto da política de drogas americana no resto do mundo e em particular na América do Sul. A forma como o Governo Nixon, Ford, Carter e Reagan disseminaram o proibicionismo e acabaram por fomentar a demonização de determinadas substâncias gerando uma guerra desenfreada com repercussões até os dias atuais.
A questão da regulamentação de drogas ilícitas é atual, mas impossível discutir tal tema sem entender todas as implicações geopolíticas que a proibição gerou nas últimas décadas e como a ingerência americana nos países latinos era abrangente ou mesmo ilimitada.
Outro ponto é perceber que os personagens envolvidos nessa batalha acabam por matar muito mais do que qualquer substância que visam combater ou vender.
Na perspectiva social é importante notar como a figura de Pablo Escobar é totalmente dúbia e de difícil caracterização. Pois, ao mesmo tempo que é um criminoso frio, sádico e cruel ele é amado por parte do povo e tem um contato afetuoso com família e amigos.
Ele definitivamente não cumpre o papel de vilão estigmatizado e totalmente unilateral. Sua complexidade põe por terra o dualismo bem x mal. 
A figura de um salvador do povo representada por Pablo merece destaque também para se compreender qual era a situação econômica e social da Colômbia na época.
A ausência do Estado fomenta o aparecimento do narcotraficante de Medellin. O tráfico acaba se tornando um Estado totalmente paralelo, exatamente aproveitando-se das fragilidades que as autoridades colombianas apresentavam.
No aspecto do comportamento violento podemos perceber uma total desumanização dos inimigos e principalmente o utilitarismo (o fim justificam os meios) nas ações dos dois lados da guerra. 
O desapreço pela vida é demonstrado não só por Pablo como também por parte de quem o caça (los pepes, por exemplo).
O comportamento violento de Escobar tem seu ápice com atos de extrema violência como a explosão de aviões - o que criaria a expressão NARCOTERRORISTA.
No entanto, aqueles que o caçaram também promoveram em menor escala um banho de sangue por toda a Colômbia.


A terceira temporada com foco no Cartel de Calli nos oferece um panorama geral e imprescindível para se entender como a guerra às drogas e a política estão nefralgicamente interligadas e se alimentam mutuamente.
A série Narcos, portanto, acaba por nos oferecer uma visão abrangente do problema das drogas em seu viés histórico, mas contribui também para deixar claro que décadas depois os problemas são muito semelhantes

Assistam!

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

SOBRE OS MONSTROS QUE EXISTEM EM NÓS


Ao analisar o comportamento violento percebemos que não existem linhas que separam o bem e o mal

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A INTERNAÇÃO COMPULSÓRIA DE DROGODEPENDENTES

Na presente exposição, temos o objetivo de delinear o atual cenário das internações involuntárias (em especial a que se concretiza de maneira compulsória), de drogodependentes na legislação pátria. A análise recai sob os aspetos técnicos, legais e principalmente ideológicos do cerceamento de liberdade de determinados usuários.
Tal apreciação põe em relevo a importante interseção entre a saúde e o Direito e também evidencia como tais ciências ainda carecem de maior aproximação.
No tocante ao Direito, cabe diferenciar tais internações e conferir legalidade a todo e qualquer ato que ponha em risco, a dignidade humana do cidadão. Já a Saúde deve respaldar a necessidade de possíveis internações, sempre considerando tal postura terapêutica como medida de exceção.
Assim, diante de toda internação terapêutica que se dá contra a vontade expressa do paciente, necessita-se ponderar o direito em sua concepção de controle (referendado por conceitos da área da saúde) versus os direitos e garantias fundamentais do cidadão. Nos dias atuais temos nos confrontado com o crescente número de internações compulsórias ou involuntárias por parte do poder público. Tais procedimentos são midiatizados e popularizados nos veículos de comunicação, sendo incentivados por grande parte da população que aprova tal participação violenta do Estado sobre o corpo e a liberdade sem, no entanto, termos uma abordagem equilibrada e garantista de tais procedimentos (CORREIA JUNIOR, 2013).
As soluções terapêuticas que sustentam uma política de privação de liberdade vão de encontro aos princípios preconizados pelo próprio Ministério da Saúde (BRASIL, 2004), que preconiza um tratamento pautado no aumento do grau de liberdade. Assim, fica claro o paradoxo e a contradição presentes nas políticas de internação involuntária.
Seguindo a mesma esteira o tratamento deve buscar devolver ao indivíduo sua história, promover a sua autonomia e liberdade e patrocinar senão a cura, ao menos sua liberdade de escolha, respeitando seu consentimento (BRASIL, 2004).
Em relação ao consentimento Grove pondera: “Como parte integrante do direito à saúde. O Consentimento livre e esclarecido do paciente deve ser garantido, contra a estigmatização ou discriminação por qualquer motivo” (GROVE, 2009  p. 43).
Neste cenário contraditório, localiza-se as internações voluntárias e involuntárias em uma precária e frágil legislação. Pois, no tocante às drogas, nosso ordenamento é omisso sobre as possibilidades e limitações das internações. De tal modo, o conceito destes procedimentos terapêuticos somente são afirmados na Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001 (CORREIA JUNIOR, VENTURA, 2013).
Neste diploma legal, as internações voluntárias são aqueles procedimentos onde o paciente anseia pela internação, e, por sua vez, o médico e os profissionais da saúde a acolhem, e legitimam tal medida (CORREIA JUNIOR, VENTURA, 2013).
Já as internações involuntárias são intervenções nos quais a capacidade volitiva do indivíduo é restringida ou mesmo anulada, e o procedimento terapêutico é realizado à revelia do seu consentimento. As involuntárias podem se dar de maneira não compulsória (onde deve haver o pedido de terceiro, assim como a notificação do Ministério Público Estadual em 72 horas) e compulsória (onde a presença do juiz é indispensável e a restrição de liberdade somente acontece depois do devido processo legal e o respeito ao princípio da legalidade dentre outros).
Vale ressaltar que, peculiarmente, deve-se apontar a internação compulsória voluntária como uma possibilidade atual no Brasil, definida como aquela feita pelo judiciário, mas a pedido do próprio usuário que a margem do sistema de saúde, não consegue vagas para tratamento voluntário (CORREIA JUNIOR, VENTURA, 2013).
RESOLUÇÃO CFM nº 2.057/2013 consolida a internação compulsória como aquela que deve ser dada pelo magistrado.
Urge destacar que a diferenciação de tais recursos terapêuticos se dá com base em uma lei que trata exclusivamente de transtornos mentais, uma vez que a lei de drogas não regula e não aponta soluções para o usuário de drogas e seu tratamento.
As internações quando se dão contra a vontade do paciente devem ser tratadas como medidas de exceção e não podem ser convalidadas como política pública e estandarte de programas de governo na área da saúde e principalmente na área de segurança pública.
As internações involuntárias por períodos longos e o incentivo a abstinência forçada agem como um recurso instantâneo para a expiação e purificação do usuário. Tais internações são meros processos de exclusão social de repressão aos usuários, e não ações pautadas na necessidade e na saúde pública (IZECKSOHN, 2003);
No entanto, embora as internações de drogodependentes devam ser desestimuladas e repensadas é impreterível afirmar que no cenário atual a internação compulsória oferece uma saída menos nefasta que a internação involuntária não-compulsória (concretizada por terceiros e o profissional da saúde), uma vez, que sendo deferida pelo judiciário, requer sejam respeitados o contraditório, a ampla defesa do paciente que também deve ter assegurado sua dignidade humana, assim como todos os demais princípios e direitos individuais. O verniz legal da internação compulsória a consolida como uma solução menos invasiva e hostil aos direitos e garantias fundamentais do que a mera internação involuntária não-compulsória.
Por fim, é essencial lembrar que as internações involuntárias, quando destituídas de critérios ou afastadas dos princípios constitucionais acabam por se distanciar da promoção da saúde pública para se aproximar da tutela de meros corpos aprisionados e sem perspectiva de evolução e soltura.
Sendo assim, o cuidado integral e a garantia de cidadania ficam prejudicados frente à necessidade do Estado em afastar uma parcela da população que não se enquadra à engrenagem capitalista, fazendo dessas internações ferramentas para a consolidação da ideologia da defesa social (BARATTA, 1999).


Referências:
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. SVS/CNDST/AIDS. A Política do Ministério da Saúde para Atenção Integral a Usuários de Álcool e Outras DrogasMinistério da Saúde. 2ª ed. rev. ampl. – Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e crítica do Direito Penal. 2a. ed. Trad. Juarez Cirino dos Santos. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1999.
CORREIA JUNIOR, Rubens; VENTURA, Carla Aparecida Arena. As internações involuntárias de drogodependentes frente à legislação brasileira – uma análise em relação ao contexto histórico do tratamento de dependentes e as políticas higienistas e de profilaxia social. Revista Direitos Fundamentais e Democracia, v. 13, n. 13. p. 250-280, 2013. [full text].
CORREIA JUNIOR, Rubens. O Poder Público Frente às Internações Involuntárias – Uma Análise em Relação à Institucionalização da Segregação e a Profilaxia Social. In: Gustavo Calçado e José Humberto Ramos. (Org.). Gestão Pública e suas implicações no século XXI. 1ed.Uberaba: W/S Editora e GRáfica, 2013, v. 1, p. 277-299.
GROVER Anand. (Relator Especial da ONU sobre o direito ao mais alto nível possível de saúde). Report of the Special Rapporteur on the right of everyone to the enjoyment of the highest attainable standard of physical and mental health (2009). A/64/272, p 43.
IZECKSOHN, S. O tratamento como ritual de cura. In: BAPTISTA, M. et al. (Org.). Drogas e pós modernidade: faces de um tema proscrito. Rio de Janeiro: UERJ, 2003..

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

HOMICIDAS EM SÉRIE, CRIMINOLOGIA, DROGAS, SISTEMA PENITENCIÁRIO E OUTROS DEBATES PELO BRASIL

































quarta-feira, 11 de outubro de 2017

PODER, BODE EXPIATÓRIO E GUERRA ÀS DROGAS




Inicialmente vale lembrar que o controle social está diretamente atrelado aos objetivos da sociedade atual de conter-se e de vigiar-se. Todo ato que visa controlar a sociedade é um ato que deve expandir-se, deve comunicar-se para atingir seu êxito, pois é através da comunicação que se consolida na sociedade. Desta forma, mais importante que o próprio controle é fazer com que a população creia que necessita de tais controles. Insere-se neste ponto a ideia de que é necessário que a população crie bodes expiatórios (HAMMERSCHMIDT; GIACOIA, 2009).
No entanto, o fenômeno de construção de bodes expiatórios não é recente. A história da humanidade é permeada de uma série de personagens que assumem o papel de antagonistas dentro da cena social. Os usuários de drogas são apenas uma das releituras dos hereges do século XV, dos índios, negros, imigrantes, e até os nordestinos do século XX. A história, portanto, se repete na criação de um inimigo a ser combatido, um ser a se considerar fraco e frágil frente aos verdadeiros valores sociais de cada época (CHRISTIE, 1993).
Desta maneira, os castigos e punições a determinados sujeitos consolidam a ideia de sacrifício, que deve ser considerado aqui como a transferência a uma vítima selecionada de todo o ódio e tensão que geram mal-estar na sociedade. Neste sentido, o papel deste objeto vitimário deve ser de figuração na sociedade, ou seja, deve estar inserido no seio social, pois é essencial que haja a identificação dos cidadãos para com ele, mas não pode compor parte fundamental da coletividade (MARUJE, 2013).
A partir da ideia de bode expiatório deve se ressaltar que as drogas ou substâncias psicoativas sempre existiram em todas as culturas e estão presentes em passagens simbólicas importantes da sociedade moderna ocidental como a água transformada em vinho em um importante momento bíblico. No entanto, essa perenidade histórica das substâncias entorpecentes não caminha lado a lado com a proibição que é fenômeno, particularmente, recente e potencializado nas últimas décadas do século XX (KARAM, 2011).
Assim, o estreitamento da relação entre o uso de drogas, sua proibição e a formação de uma imagem estigmatizante do sujeito entregue à dependência (bode expiatório) não pode ser considerado um valor ontológico pertencente às sociedades. Foi uma construção histórica peculiar e lenta, mas não aleatória (ou acidental) e sim um projeto de consolidação que se iniciou (ou potencializou) em uma guerra.
Tal projeto de consolidação visou a materialização de uma política bélica contra determinadas substâncias e que acabaria por lançar um estigma aos usuários (em especial dependentes) de drogas. A proibição é uma construção social multifatorial recente e o estigma e a rotulação ligados ao uso de drogas são ainda mais contemporâneos. De início, a proibição visou, em seu discurso oficial, a abstinência geral de toda a população frente à determinadas substâncias. No entanto, a ideia de abstinência como solução para as drogas se comprovou ao longo dos anos inútil frente à cultura e necessidade dos sujeitos e pelo princípio do livre arbítrio e da busca íntima e individual do prazer (KARAM, 2011).
A necessidade humana de fugir do deserto do real, em buscar a efemeridade de momentos ultrapassa a disciplina de se manter sóbrio durante toda uma vida, por mera construção legal (ZIZEK, 2006). Além de vazia e utópica, a política de abstinência foi atingindo o status de perigosa e totalitária à medida que a partir da década de 1960 começou-se a pensar em uma política pública mundial de profilaxia relacionada a determinadas substâncias eleitas de maneiras incoerentes e arbitrárias.
Tal política foi nomeada por “guerra às drogas”[1], nome que representa o belicismo estatal e social que seria construído ao longo dos anos frente aos usuários (KARAM, 2011).
Neste contexto, a pregação de cunho moral[2] alcançou, portanto, o status de política global que culminou com o alastramento de políticas estatais de patrocínio à intromissão do Estado na esfera privada. Tal intromissão se resguardou em uma série de leis e normas internacionais e que foram integradas aos ordenamentos jurídicos nacionais e resultaram em uma teia normativa segregacionista e excludente.
Esta guerra auxiliou na consolidação do modelo de estrutura de controle social apresentado neste trabalho, pois com a ideologia bélica frente a usuários de substâncias ilegais se alastravam também as possibilidades de controle do Estado, sob os auspícios do bem comum e também da saúde individual. Embora fosse arbitrária a eleição das substâncias a serem ou não demonizadas, o rótulo de desviantes se consolidou.
Ainda, além de fortalecer as estruturas de controle, a guerra potencializou o caráter bélico na atuação do poder punitivo. Assim, após a proliferação da ideologia beligerante frente às drogas, se observou a expansão do Direito Penal atrelado a um processo de rotulação e estigmatização em proporções industriais no seio social e a consolidação da exclusão pela sociedade.
A postura beligerante, além de influenciar a dominação e controle social, ainda repercutiu de maneira direta no seio social, principalmente no que diz respeito à população periférica. Esta repercussão é enfatizada por Karam (2011, p. 2), quando aborda os efeitos da guerra às drogas:

Espalhando violência, mortes, prisões, estigmas, doenças, sem sequer obter qualquer resultado significativo, nem se diga na irracional pretensão de acabar com o consumo das selecionadas drogas tornadas ilícitas, mas nem mesmo na redução da circulação das substâncias proibidas.

Vale acrescentar que embora drogas legais não compartilhassem o mesmo peso simbólico das substâncias ilícitas, os usuários delas dependentes tiveram também o peso da segregação. O abuso destas substâncias começou também a ser demonizado como a representação de uma fraqueza ou de uma ruína frente a sociabilidade.
Tal realidade persiste até hoje e o uso socialmente aceito se consolidou como um padrão a ser referendado pelos sujeitos. Nesta perspectiva, qualquer desvio neste modelo fragiliza o sujeito e o deixa vulnerável à exclusão e posteriormente apto a alimentar as engrenagens de controle.
Por conseguinte, o rótulo se consolidou abrindo a enorme possibilidade ao arbítrio nas decisões, assim como ao Estado a possibilidade de vincular a proibição a alguns grupos específicos.  Este alastramento do alcance dos grupos a serem vulnerabilizados não foi exclusividade da Guerra às Drogas, mas inegavelmente foi potencializado em razão de sua existência.
No Brasil, bem antes da guerra às drogas, já tínhamos exemplos do uso da criminalização de substâncias direcionadas a certos grupos como, por exemplo, a proibição do cânhamo[3]. Já nos Estados Unidos, mesmo antes da política proibicionista, já se vislumbrava um cenário em que a canabis se associava fortemente aos imigrantes mexicanos[4].
Chega-se ao irrefragável fato que o proibicionismo fracassou em seu principal objetivo oficial, qual seja: a abstinência do sujeito e a derrocada da oferta em todo mundo[5]. No entanto, seus efeitos ideológicos estão potencialmente alastrados.
O aparelhamento do Estado policial tem no combate ao tráfico de drogas seu principal objetivo e alicerce. Entretanto, a despeito de todo o esforço despendido, a venda de substância lícitas e ilícitas que alteram o comportamento cresce vertiginosamente (KARAM, 2011).
Embora a economia e cultura comprovem o fracasso de tais políticas, estas ainda se perpetuam e se avolumam por todo o mundo. Continuam, também, patrocinando uma estrutura de exclusão representada pelas engrenagens de controle oficial, como prisões e clínicas terapêuticas, dentre outros espaços de exclusão que são alimentados hodiernamente por usuários de drogas ilícitas e lícitas.
De acordo com Karam (2011, p. 3):

A proibição às selecionadas drogas tornadas ilícitas forneceu e fornece o impulso requerido pela consolidação de uma globalmente uniforme tendência punitiva e uma expansão do poder punitivo sem paralelos.

A expansão do poder punitivo de maneira ilimitada se encontra localizada em instrumentos de cerceamento de liberdade diversos do poder penal, do cárcere ou manicômios judiciais, que contribuem para a consolidação e expansão do ideário de exclusão.
Neste aspecto, é vital salientar o papel dos saberes médicos e hospitalares na consolidação do controle, na expansão do poder punitivo e concretização do domínio, apoderando-se do conceito de guerra para atingir determinados grupos sociais.
Neste sentido, ao analisar o acolhimento forçado no Rio, Karam (2011, p. 11) afirma:
O manifestamente ilegítimo “recolhimento” e internação forçada de crianças e adolescentes em situação de rua no Rio de Janeiro, sob o pretexto de supostamente “livrá-las” do crack, é mais uma expressiva demonstração de quem são os “inimigos” na versão brasileira da “guerra às drogas”.

Assim, podemos aferir que a guerra às drogas culmina com uma política bem mais abrangente e ilimitada voltada ao cerceamento da liberdade, a profilaxia e higienização de determinados indivíduos. O controle, portanto, se fragmentou em uma série de simbologias e ferramentas, ora evidentes, ora subliminares, visando à docilização de determinado nicho social. A exclusão, a violência, a criação de bodes expiatórios, a vulnerabilização de sujeitos e perpetuação da estratificação social foram ingredientes que consolidaram os usuários de drogas como vítimas expiatórias, ora pela proibição da substância, ora pelo excesso em seu gozo e desejo.

Referencias

CARLINI, E. A. A história da maconha no Brasil. J. bras. psiquiatr.,  Rio de Janeiro ,  v. 55, n. 4, p. 314-317,    2006 .   Disponível em:  . Acesso em: 11  Jul.  2016. 

CHRISTIE, N. El control de las drogas como um avance hacia condiciones totalitárias. In: Criminología Crítica y Control Social. Rosario: Editorial Juris, 1993.

HAMMERSCHMIDT, D; GIACOIA, G. Crise Atual do Sistema Penal de Controle Social. 2009 Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=e32c51ad39723ee9. Acesso em: 31 mar. 2016.

KARAM, M. L. Direitos Humanos, laço social e drogas: por uma política solidária com o  sofrimento humano. Conferência de abertura do VII Seminário Nacional Psicologia  e Direitos Humanos. Brasília, DF, Nov. 2011. Promovido pela Comissão Nacional de  Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia (CFP) – Brasília-DF – novembro  2011.

MERUJE, M. ROSA, J. M. S. Sacrifício, Rivalidade Mimética e “Bode Expiatório” em R. Girard.  Griot – Revista de Filosofia, Amargosa, Bahia – Brasil, v.8, n.2. p. 157. Disponível em:  http://www.ufrb.edu.br/griot/images/vol8-n2/13.pdf. Acesso em: 27   Mar. 2014.

ŽIŽEK, S. Bem vindo ao deserto do Real!. Boitempo Editorial, 2006.



[1] A “guerra às drogas” foi declarada, mais precisamente, em 1971 pelo Presidente americano Richard Nixon e acabou por inserir ou reinserir de uma maneira atualizada a velha ideologia pautada em uma guerra como modelo justificador para a atuação do sistema penal.
[2] Karam (2011, p. 4) define e resume o vínculo entre guerras às drogas e moral da seguinte maneira: “Drogas estão associadas ao prazer, elemento que propicia o lançamento de cruzadas moralizantes”.
[3] A palavra maconha é um anagrama de cânhamo. O cânhamo foi introduzido no Brasil em 1549 e sua história se confunde com a história da Colônia. No século XVIII, havia incentivo da coroa portuguesa para o cultivo desta planta. A droga foi difundida entre os escravos e no século XIX a postura da coroa começa a mudar no sentido da limitação e proibição, o que culminou no século XX com a proibição da maconha na conferência internacional do ópio em 1924, com grande protagonismo do Brasil (CARLINI, 2006).
[4] Sobre este tema e estes dados, ver a pesquisa The racial history of U.S. drug prohibition”, da Drug Policy Alliance. Disponível em http://www.drugpolicy.org/about/position/race_paper_
history.cfm
[5] Com efeito, após cem anos da globalizada proibição com seus quarenta anos da nociva, “insana e sanguinária guerra às drogas”, o resultado visível é que as substâncias proibidas foram se tornando mais baratas, mais potentes, mais facilmente acessíveis e mais diversificadas (KARAM, p. 2, 2011).

domingo, 7 de junho de 2015

QUAL O MUNDO QUEREMOS PARA NOSSOS FILHOS?




Em um determinado shopping, de determinada cidade me deparei com o brinquedo desta foto.

O fato que me espantou foi verificar em pleno século XXI que ainda temos brinquedos infantis, com objetivos bélicos e de abater alvos.
Para minha surpresa ao verificar tal mimo, descobri que os "alvos" eram em sua maioria índios.
Nem vou entrar no mérito da 
"americanização" dos brinquedos de nossas crianças.
Mas o que mais me intrigou não foi a surrealidade do brinquedo, totalmente desconectado com as modernas maneiras de se tratar as atividades lúdicas para crianças.
Mas foram os pais que vi, incentivando seus filhos a atirarem nos "alvos estigmatizados", com frases como "mata filho" "você deixou aquele em pé".
Sinceramente, esse é o mundo que queremos para nossos filhos?
não pode ser...
Quero um mundo onde os brinquedos sejam incentivadores de amor. Quero um filho amoroso, solidário.
Meu filho não tem que aprender a "ser homem", mas sim aprender que violência não é um brincadeira, nem uma opção, que cozinha não é lugar de mulher, que ele pode chorar o quanto quiser.
Em um mundo cinza e sombrio que desponta nestes anos, o fascismo parece uma questão quase hereditária, passando de pais reacionários para crianças cada vez menos acostumadas ao amor.
Quero menos cavalos encelados, revolveres apontados e índios mortos nos parques, nos desenhos.

Quem sabe o mundo dos nossos filhos não será de menos preconceitos, violência e dor.


Já fracassamos com o nosso mundo...
Será justo fracassar com o futuro mundo deles também?